O Agente, a Voz, a Esposa e o Maestro. Quatro personagens foram suficientes para construir a narrativa da segunda obra de Lourenço Mutarelli, O Natimorto. O autor desenvolve com destreza uma história fora do convencional em forma e contexto, expondo fragmentos semelhantes às poesias, como se fossem oriundos de um texto teatral.
O contato prematuro com a narrativa do Agente mesclada aos diálogos é suficiente para constatar a genialidade do escritor ao designar os elementos da história. O Agente apropria as imagens com mensagens antifumo em maços de cigarro – ele interpreta as fotografias como cartas de tarô – utilizando por base o conhecimento sobre carteado, obtido com a tia que o criou.
Ele envolve uma jovem cantora com as tentativas de prever o futuro por meio dessas interpretações. A Voz, recém chegada à cidade e carregando a expectativa pelo reconhecimento de seu talento, canta com tamanha beleza e candura a ponto de tornar-se inaudível. O Agente, cansado de lidar com a sensação de invisibilidade perto àqueles de sua convivência, a impotência e a traição da mulher, encontra alento na Voz. Atenta às histórias, ela é, em um primeiro momento, a personificação da pureza e perfeição não mais encontrada por ele na sociedade.
Em um misto de encanto, loucura e fuga a um mundo onde as mazelas são predominantes, a personagem central faz-lhe uma proposta – isolar-se com ele no hotel onde ela se hospeda. E ali viver, sem a necessidade de recorrer ao mundo pecaminoso. Mas o desafio que num primeiro instante a instiga, revela-se agonizante com a convivência diária.
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À margem da própria humanidade
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O Outro Lado da História
Usualmente, a característica mais encantadora das crianças, para os adultos, é a inocência. O modo como concebem coisas complexas com simplicidade, interpretando-as à sua maneira – e construindo, assim, uma visão particular dos acontecimentos cotidianos, tratados de um modo singelo. Desta maneira, o pequeno Bruno conta sua história na obra de John Boyne, O Menino do Pijama Listrado.
O garoto tem nove anos e possui características comuns às crianças da mesma faixa etária. Gosta de se divertir com os amigos da escola, brincar de “exploração” na enorme casa onde mora e provocar Gretel, a irmã mais velha. A infância bem aproveitada é abalada, porém, quando os pais anunciam uma mudança. Por razão do trabalho do pai, a família deverá abandonar Berlim para viver em “Haja-Vista”, onde deverão permanecer por um “futuro previsível”.
Aceitar tamanha transformação não é fácil para ninguém, mas torna-se ainda mais difícil para uma criança. A nova casa é bem menor e isolada – não possuem vizinhos - e os irmãos têm um professor particular. Há somente um enorme campo separado por uma imensa cerca de ferro. Bruno faz o que pode para se distrair, como inventar um balanço com uma roda de pneu, ou brincar de explorar caminhando ao longo da cerca. É quando se depara com uma criança que vive do outro lado, trajando o mesmo “pijama listrado” utilizado por todos no campo. Visitar o novo “amigo”, Shmuel, torna-se então uma atividade cotidiana – ambos aproveitam as horas de conversas como uma fuga das tardes tediosas.
A narrativa é carregada pelo olhar infantil – característica que tira um pouco do encanto da visão inocente. A curiosidade do garoto provoca certa agonia no decorrer da obra – afinal, ele não compreende os verdadeiros acontecimentos e a família faz o possível para sustentar essa ideia. Mas Boyne faz bom uso da opção pela história contada por uma criança. Mesmo conhecendo o contexto do livro, a narrativa se desenvolve provocando dúvidas no leitor - a cada capítulo, o autor acrescenta fatos que aos poucos respondem aos questionamentos.
Embora não seja a melhor obra sobre o período da Segunda Guerra Mundial, O Menino do Pijama Listrado oferece uma interessante versão da história. Não há nenhum tipo de “promoção” ao nazismo, pintando-o como algo bom. Boyne optou por abordar uma visão pouco usual, mas com o cuidado de colocar personagens que pouco conhecem sobre suas condições.
Embora pertença à categoria de livros infanto-juvenis, pode ser um tanto pesado para jovens, em especial pelo triste desfecho. Ainda assim, é uma obra delicada que proporciona uma reflexão sobre um período conturbado da história.
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O garoto tem nove anos e possui características comuns às crianças da mesma faixa etária. Gosta de se divertir com os amigos da escola, brincar de “exploração” na enorme casa onde mora e provocar Gretel, a irmã mais velha. A infância bem aproveitada é abalada, porém, quando os pais anunciam uma mudança. Por razão do trabalho do pai, a família deverá abandonar Berlim para viver em “Haja-Vista”, onde deverão permanecer por um “futuro previsível”.
Aceitar tamanha transformação não é fácil para ninguém, mas torna-se ainda mais difícil para uma criança. A nova casa é bem menor e isolada – não possuem vizinhos - e os irmãos têm um professor particular. Há somente um enorme campo separado por uma imensa cerca de ferro. Bruno faz o que pode para se distrair, como inventar um balanço com uma roda de pneu, ou brincar de explorar caminhando ao longo da cerca. É quando se depara com uma criança que vive do outro lado, trajando o mesmo “pijama listrado” utilizado por todos no campo. Visitar o novo “amigo”, Shmuel, torna-se então uma atividade cotidiana – ambos aproveitam as horas de conversas como uma fuga das tardes tediosas.
A narrativa é carregada pelo olhar infantil – característica que tira um pouco do encanto da visão inocente. A curiosidade do garoto provoca certa agonia no decorrer da obra – afinal, ele não compreende os verdadeiros acontecimentos e a família faz o possível para sustentar essa ideia. Mas Boyne faz bom uso da opção pela história contada por uma criança. Mesmo conhecendo o contexto do livro, a narrativa se desenvolve provocando dúvidas no leitor - a cada capítulo, o autor acrescenta fatos que aos poucos respondem aos questionamentos.
Embora não seja a melhor obra sobre o período da Segunda Guerra Mundial, O Menino do Pijama Listrado oferece uma interessante versão da história. Não há nenhum tipo de “promoção” ao nazismo, pintando-o como algo bom. Boyne optou por abordar uma visão pouco usual, mas com o cuidado de colocar personagens que pouco conhecem sobre suas condições.
Embora pertença à categoria de livros infanto-juvenis, pode ser um tanto pesado para jovens, em especial pelo triste desfecho. Ainda assim, é uma obra delicada que proporciona uma reflexão sobre um período conturbado da história.
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The Chronicles of Narnia: The Voyage of the Dawn Treader review
A entrada para um mundo fantasioso e repleto de aventuras está sempre mais próxima do que se imagina. Nas Crônicas de Nárnia, um portal pode estar em um guarda-roupa, ou mesmo em uma simples pintura de navio no meio do mar. É o caso do terceiro filme da série, As Crônicas de Nárnia - A Viagem do Peregrino da Alvorada.
Inspirado no quinto livro da sequência criada pelo escritor inglês C. S. Lewis, a nova aventura é vivida por Lucy - interpretada novamente por Georgie Henley - e Edmund - papel atribuído ao jovem Skandar Keynes. Agora crescidos, passam as férias longe dos dois irmãos mais velhos - Peter e Susan. Ambos são levados através da pintura na casa dos tios para o navio “Peregrino da Alvorada”, em alto mar, ao leste do reino de Nárnia. O reencontro com o Príncipe Caspian e o rato Ripchip se dá, porém, com a presença do primo ranzinza dos irmãos Pevensie, Eustace, vivido por Will Pouter.
O Príncipe Caspian, vivido por Ben Barnes, é determinado em sua viagem. Por honra ao seu pai e pelo povo de Nárnia, deve reencontrar as sete espadas dadas aos Lordes de Telmar por Aslam e enfrentar uma estranha névoa, para estabelecer a paz no local. A ajuda dos irmãos Peter e Lucy é fundamental. Para isso, porém, são postos perante desafios. As mensagens edificantes da película são expostas, em especial, pelos irmãos e o primo Eustace.
Além da ajuda ao príncipe, precisam lidar com situações de amadurecimento. Deparam-se com criaturas de diversos tipos - em belíssimas paisagens que dispensam a projeção em 3D - e correm perigo a cada ilha por onde passam. Em uma das paradas, Edmund enfrenta o primeiro teste. Ao encontrar um lago que transforma qualquer objeto em ouro, é tentado pela ambição. Já Lucy, em meio a uma fase conturbada da vida adolescente, convive com a insegurança comum nesse período, por não se achar tão bonita quanto à irmã.
Diferente dos longas anteriores, As Crônicas de Nárnia - A Viagem do Peregrino da Alvorada - é ágil, e composto majoritariamente por cenas de ação. A adaptação feita pelo diretor Michel Apted cumpre seu papel na tentativa de ensinar uma lição aos jovens. Cada etapa enfrentada pelas personagens prova que é possível criar uma boa ficção, sem a necessidade de exemplos esdrúxulos.
Inspirado no quinto livro da sequência criada pelo escritor inglês C. S. Lewis, a nova aventura é vivida por Lucy - interpretada novamente por Georgie Henley - e Edmund - papel atribuído ao jovem Skandar Keynes. Agora crescidos, passam as férias longe dos dois irmãos mais velhos - Peter e Susan. Ambos são levados através da pintura na casa dos tios para o navio “Peregrino da Alvorada”, em alto mar, ao leste do reino de Nárnia. O reencontro com o Príncipe Caspian e o rato Ripchip se dá, porém, com a presença do primo ranzinza dos irmãos Pevensie, Eustace, vivido por Will Pouter.
O Príncipe Caspian, vivido por Ben Barnes, é determinado em sua viagem. Por honra ao seu pai e pelo povo de Nárnia, deve reencontrar as sete espadas dadas aos Lordes de Telmar por Aslam e enfrentar uma estranha névoa, para estabelecer a paz no local. A ajuda dos irmãos Peter e Lucy é fundamental. Para isso, porém, são postos perante desafios. As mensagens edificantes da película são expostas, em especial, pelos irmãos e o primo Eustace.
Além da ajuda ao príncipe, precisam lidar com situações de amadurecimento. Deparam-se com criaturas de diversos tipos - em belíssimas paisagens que dispensam a projeção em 3D - e correm perigo a cada ilha por onde passam. Em uma das paradas, Edmund enfrenta o primeiro teste. Ao encontrar um lago que transforma qualquer objeto em ouro, é tentado pela ambição. Já Lucy, em meio a uma fase conturbada da vida adolescente, convive com a insegurança comum nesse período, por não se achar tão bonita quanto à irmã.
Diferente dos longas anteriores, As Crônicas de Nárnia - A Viagem do Peregrino da Alvorada - é ágil, e composto majoritariamente por cenas de ação. A adaptação feita pelo diretor Michel Apted cumpre seu papel na tentativa de ensinar uma lição aos jovens. Cada etapa enfrentada pelas personagens prova que é possível criar uma boa ficção, sem a necessidade de exemplos esdrúxulos.
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Scott Pilgrim vs. the World review
A premissa de Scott Pilgrim Contra o Mundo é um mero disfarce. A pacata vida contada como um jogo de videogame parece um tema de interesse somente para jovens nerds e geeks. Lutar com os “sete ex-namorados malvados” da garota - literalmente - de seus sonhos, pode parecer ainda mais absurdo, mas é apenas o artifício ideal utilizado para aplicar, de forma bem humorada e inteligente, inúmeras tiradas sarcásticas ao filme.
Scott Pilgrim, interpretado sem muitas dificuldades por Michael Cera, segue a linha dos exemplos a não serem adotados. Com 23 anos, está desempregado, não faz faculdade, além de ter um amigo gay como roommate. Para completar, mantém uma banda com amigos do Ensino Médio, a Sex Bob-Omb. E “namora” uma colegial. Tudo muda quando encontra a garota que havia aparecido em seu sonho - Ramona Flowers, papel de Mary Elizabeth Winstead. A moça acaba de chegar à cidade e seu ar misterioso atrai ainda mais a atenção de Scott – o que é muito, para um garoto distraído como ele. Porém, para ficar com Ramona, ele precisa enfrentar a liga dos sete ex-namorados dela.
Através de metáforas bem elaboradas, inicia-se o ‘jogo’ para permanecer com a garota. Ao adaptar a série de quadrinhos de Brian Lee O’Malley, o diretor Edgar Wright faz bom proveito dos recursos do cinema para deixar o enredo ainda mais emocionante. Não descarta elementos do videogame - cada duelo é marcado pelo “VS”, além da clássica barrinha de vida.
Uma das características marcantes do longa são as piadas aplicadas por intermédio dos sete ex-namorados. O terceiro, Todd - vivido pro Brandon Routh - ganhou poderes especiais por ser vegan. Chris Evans interpreta Lucas Lee, um ator que tira proveito da fama de vilão e dos incontáveis dublês, mas não é esperto o suficiente para recusar o desafio proposto por Scott. Como nos games mais conhecidos, a personagem principal precisa conhecer as táticas especiais para combater cada oponente - e, claro, adquire vantagens ao fim de cada disputa. Além das moedinhas adquiridas ao eliminar cada oponente, as conquistas são criativas - como uma “Espada do Amor Próprio”, que dá direito a um bônus pela confiança na própria personalidade.
Caso se tratasse de um filme fraco, o humor ácido presente na maioria das cenas seria suficiente para ofuscar qualquer defeito. A perspicácia de Kim Pine, encarnada por Alison Pill e as falas do divertido Wallace, - papel de Kieran Culkin - amigo gay que divide o quarto com Scott, são dois bons exemplos da presença do gênero comédia.
A escolha das músicas para a trilha sonora também é impecável – inclui canções ‘moderninhas’, como Black Sheep, da banda Metric e clássicas, como Under My Thumb, dos Rolling Stones.
Através de diálogos espertos e incontáveis referências à cultura pop, Scott Pilgrim Contra o Mundo diverte sem cair nos clichês das comédias comuns, atribuindo faceta bem-humorada ao ordinário cotidiano.
Scott Pilgrim, interpretado sem muitas dificuldades por Michael Cera, segue a linha dos exemplos a não serem adotados. Com 23 anos, está desempregado, não faz faculdade, além de ter um amigo gay como roommate. Para completar, mantém uma banda com amigos do Ensino Médio, a Sex Bob-Omb. E “namora” uma colegial. Tudo muda quando encontra a garota que havia aparecido em seu sonho - Ramona Flowers, papel de Mary Elizabeth Winstead. A moça acaba de chegar à cidade e seu ar misterioso atrai ainda mais a atenção de Scott – o que é muito, para um garoto distraído como ele. Porém, para ficar com Ramona, ele precisa enfrentar a liga dos sete ex-namorados dela.
Através de metáforas bem elaboradas, inicia-se o ‘jogo’ para permanecer com a garota. Ao adaptar a série de quadrinhos de Brian Lee O’Malley, o diretor Edgar Wright faz bom proveito dos recursos do cinema para deixar o enredo ainda mais emocionante. Não descarta elementos do videogame - cada duelo é marcado pelo “VS”, além da clássica barrinha de vida.
Uma das características marcantes do longa são as piadas aplicadas por intermédio dos sete ex-namorados. O terceiro, Todd - vivido pro Brandon Routh - ganhou poderes especiais por ser vegan. Chris Evans interpreta Lucas Lee, um ator que tira proveito da fama de vilão e dos incontáveis dublês, mas não é esperto o suficiente para recusar o desafio proposto por Scott. Como nos games mais conhecidos, a personagem principal precisa conhecer as táticas especiais para combater cada oponente - e, claro, adquire vantagens ao fim de cada disputa. Além das moedinhas adquiridas ao eliminar cada oponente, as conquistas são criativas - como uma “Espada do Amor Próprio”, que dá direito a um bônus pela confiança na própria personalidade.
Caso se tratasse de um filme fraco, o humor ácido presente na maioria das cenas seria suficiente para ofuscar qualquer defeito. A perspicácia de Kim Pine, encarnada por Alison Pill e as falas do divertido Wallace, - papel de Kieran Culkin - amigo gay que divide o quarto com Scott, são dois bons exemplos da presença do gênero comédia.
A escolha das músicas para a trilha sonora também é impecável – inclui canções ‘moderninhas’, como Black Sheep, da banda Metric e clássicas, como Under My Thumb, dos Rolling Stones.
Através de diálogos espertos e incontáveis referências à cultura pop, Scott Pilgrim Contra o Mundo diverte sem cair nos clichês das comédias comuns, atribuindo faceta bem-humorada ao ordinário cotidiano.
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Little Tailor review
O que esperar do encontro de um alfaiate com uma jovem atriz? O média metragem Aprendiz de Alfaiate traduz esse encontro através da fusão da expressão artística de ambos. Um, portador de uma tristeza indefinível e utilizando a arte cênica como refúgio. O outro, buscando confiança na carreira e tornar-se um profissional da alta costura. O possível relacionamento é deslindado para resultar em uma pequena história de amor tipicamente francesa. É o segundo trabalho de Louis Garrel como diretor, que já havia dirigido o curta Mes Copains em 2008.
A ‘escola’ de Arthur (Arthur Igual), o aprendiz de alfaiate, é o ateliê de Albert, vivido por Albert Igual. Por estimar muito seu aluno, ele o escolhe como sucessor ao se aposentar. Quando esse momento se aproxima, em uma ida ao teatro, o amigo Sylvain, papel de Sylvain Creuzevault, o apresenta à atriz Marie-Julie, interpretada por Léa Seydoux, de A Bela Junie. Embora resista a princípio, acaba cedendo e envolve-se com ela.
Em uma das cenas mais bonitas da produção, Arthur tira as medidas de Marie-Julie enquanto ela dorme – tendo em mente a confecção de um vestido para presenteá-la. O momento marca o conflito da personagem – uma realidade não muito distante do que algumas vezes presenciamos. Valeria a pena abrir mão da formação profissional almejada para viver um romance instável? Afinal, ela vive do teatro, assumindo o compromisso de viajar com a peça. E ele, ao mesmo tempo em que batalha para tornar-se exímio alfaiate, não pode decepcionar Albert, que o vê como um filho.
O diretor elege boas referências – da trilha sonora, com direito a música dos Smiths, até trechos da obra de Tchekhov – citados pelas personagens. Outra boa escolha foi a opção pela filmagem em preto e branco, que atribui um tom clássico e romântico à obra. As tomadas, bem selecionadas, concentram a atenção do espectador nos movimentos e sensações de cada figura em cena.
Embora seja a segunda experiência cinematográfica de Garrel como diretor, o resultado é impecável. Ele consegue sintetizar, em poucos minutos, sentimentos que para muitos parecem inexprimíveis.
A ‘escola’ de Arthur (Arthur Igual), o aprendiz de alfaiate, é o ateliê de Albert, vivido por Albert Igual. Por estimar muito seu aluno, ele o escolhe como sucessor ao se aposentar. Quando esse momento se aproxima, em uma ida ao teatro, o amigo Sylvain, papel de Sylvain Creuzevault, o apresenta à atriz Marie-Julie, interpretada por Léa Seydoux, de A Bela Junie. Embora resista a princípio, acaba cedendo e envolve-se com ela.
Em uma das cenas mais bonitas da produção, Arthur tira as medidas de Marie-Julie enquanto ela dorme – tendo em mente a confecção de um vestido para presenteá-la. O momento marca o conflito da personagem – uma realidade não muito distante do que algumas vezes presenciamos. Valeria a pena abrir mão da formação profissional almejada para viver um romance instável? Afinal, ela vive do teatro, assumindo o compromisso de viajar com a peça. E ele, ao mesmo tempo em que batalha para tornar-se exímio alfaiate, não pode decepcionar Albert, que o vê como um filho.
O diretor elege boas referências – da trilha sonora, com direito a música dos Smiths, até trechos da obra de Tchekhov – citados pelas personagens. Outra boa escolha foi a opção pela filmagem em preto e branco, que atribui um tom clássico e romântico à obra. As tomadas, bem selecionadas, concentram a atenção do espectador nos movimentos e sensações de cada figura em cena.
Embora seja a segunda experiência cinematográfica de Garrel como diretor, o resultado é impecável. Ele consegue sintetizar, em poucos minutos, sentimentos que para muitos parecem inexprimíveis.
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Ondine review
As paisagens irlandesas são ideais para a propagação dos mitos ali existentes. É o caso das selkies, espécie de focas que podem se transformar em humanas – criaturas mitológicas do folclore partilhado pela Irlanda, Islândia e Escócia. Tais seres fantásticos serviram de inspiração para Ondine, novo longa do diretor Neil Jordan, conhecido pelo filme Entrevista com o Vampiro. A escolha do local das filmagens não poderia ser melhor. Christopher Doyle – responsável pela fotografia do filme Paris, Te Amo – teve o cuidado de selecionar os espaços perfeitos para este “conto de fadas moderno” na península Beara, na Irlanda.
Syracuse – personagem que marca a volta de Colin Farrell com bom desempenho nos cinemas – trabalha como pescador, sem muito sucesso, até o dia em que ‘pesca’ uma jovem chamada Ondine – interpretada pela atriz e cantora polonesa Alicja Bachleda. Ao encontrar a filha, Annie, vivida por Alison Barry, transforma o acontecimento em uma história. A garota, embora debilitada por um problema nos rins e presa em uma cadeira de rodas, tem a curiosidade aguçada; o que a leva à casa da falecida avó, onde encontra a moça do conto de fadas contado pelo pai. A inocência infantil, intensificada pelas leituras sobre criaturas mitológicas, leva Annie a aceitar Ondine como uma verdadeira selkie, convencendo o pai do mesmo.
O diretor mistura fantasia e realidade fazendo o espectador questionar-se sobre a veracidade dos fatos. Apesar das descobertas com a nova figura presente na vida de ambos, as personagens vivem realidades conflitantes. Syracuse recorre ao padre para se confessar, e a cada ida à igreja, enfatiza o fato de não beber há dois anos. Argumento insuficiente para ter a guarda da filha, que vive com a mãe, alcoólatra, e o padrasto pouco delicado. A suposta selkie tem sua fantasia abalada pelo receio de ter contato com outras pessoas – e também pela presença de um homem misterioso na cidade.
A premissa remete a um filme típico de “sessão da tarde”, mas diferencia-se por acrescentar o drama a todo momento, delineando a pouca probabilidade de um final feliz. É como se o diretor optasse pela fantasia para amenizar a triste faceta da realidade, unindo um mero mito com as crenças da comunidade local.
Syracuse – personagem que marca a volta de Colin Farrell com bom desempenho nos cinemas – trabalha como pescador, sem muito sucesso, até o dia em que ‘pesca’ uma jovem chamada Ondine – interpretada pela atriz e cantora polonesa Alicja Bachleda. Ao encontrar a filha, Annie, vivida por Alison Barry, transforma o acontecimento em uma história. A garota, embora debilitada por um problema nos rins e presa em uma cadeira de rodas, tem a curiosidade aguçada; o que a leva à casa da falecida avó, onde encontra a moça do conto de fadas contado pelo pai. A inocência infantil, intensificada pelas leituras sobre criaturas mitológicas, leva Annie a aceitar Ondine como uma verdadeira selkie, convencendo o pai do mesmo.
O diretor mistura fantasia e realidade fazendo o espectador questionar-se sobre a veracidade dos fatos. Apesar das descobertas com a nova figura presente na vida de ambos, as personagens vivem realidades conflitantes. Syracuse recorre ao padre para se confessar, e a cada ida à igreja, enfatiza o fato de não beber há dois anos. Argumento insuficiente para ter a guarda da filha, que vive com a mãe, alcoólatra, e o padrasto pouco delicado. A suposta selkie tem sua fantasia abalada pelo receio de ter contato com outras pessoas – e também pela presença de um homem misterioso na cidade.
A premissa remete a um filme típico de “sessão da tarde”, mas diferencia-se por acrescentar o drama a todo momento, delineando a pouca probabilidade de um final feliz. É como se o diretor optasse pela fantasia para amenizar a triste faceta da realidade, unindo um mero mito com as crenças da comunidade local.
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Adição de regojizo no indie pop de Belle & Sebasti
A fórmula mágica para ficar bem é simples – “escreva sobre amor, em qualquer tempo verbal”. Basta fazer sentido. Nesse contexto que se desenvolvem as onze faixas do disco Write About Love – a busca por escapatórias para enfadonhas situações enfrentadas diariamente. Após o último lançamento, The Life Persuit, de 2006, a banda Belle & Sebastian mantém a linha do cd anterior.
Um clima mais pessimista figurava nas músicas dos álbuns mais antigos da banda, como Tigermilk (1996) e If you’re feeling sinister (1999), quando Isobel Campbell ainda integrava o grupo. Esta ambientação não abandona por completo o novo disco, mas é deixada de lado para dar espaço à letras e melodias mais animadas. A escolha dos instrumentos mais representativos em cada canção tem a intenção de propiciar uma sensação de bom humor e otimismo. Aspecto evidenciado logo na primeira faixa, escrita e interpretada por Sarah Martin, I didn’t see it coming – apesar dos problemas, a letra diz “nós não precisamos de uma vida inteira, estamos seguindo a linha certa”. Esta música e a quarta faixa do disco, I want the world to stop, integram um vídeo de divulgação disponibilizado no site oficial e organizado pela distribuidora. Além da apresentação das duas canções, inclui algumas entrevistas – um pequeno filme.
A banda não deixou a desejar no projeto de divulgação. Antes mesmo do lançamento, pediram aos fãs que seguissem o exemplo da primeira possível capa do disco – fotografar cenas do cotidiano inspiradas pelo tema do cd. As melhores fotografias fazem parte do vídeo exposto.
Produzido por Tony Hoffer, responsável também pelo álbum anterior, o trabalho tem participação de figuras bastante conhecidas. Uma delas é a atriz britânica Carey Mulligan, que divide os vocais com o vocalista Stuart Murdoch na faixa que dá nome ao disco. A outra participação é reconhecível logo nos primeiros segundos da música Little Lou, Ugly Jack, Prophet John. Apesar da distinção de estilos, a cantora norte-americana Norah Jones realizou ótimo dueto com o vocal da banda. Para fãs mais exigentes, Read the blessed pages, Calculating bimbo e Sunday’s pretty icons – que fecha o disco com a participação de Mick Cooke na composição – remetem às obras mais antigas, por possuírem temas e levadas mais tristes.
O grupo mudou em alguns aspectos, mas obteve bom resultado ao manter o estilo indie pop e mesclar as composições. A maioria delas é de Stuart Murdoch, com exceção de duas faixas compostas e interpretadas por Sarah Martin e da animada I’m not living in the real world, escrita e cantada por Stevie Jackson. Quem acompanha a banda há bastante tempo pode não se satisfazer ao conferir o álbum pela primeira vez. Mas vale oferecer outras chances.
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Um clima mais pessimista figurava nas músicas dos álbuns mais antigos da banda, como Tigermilk (1996) e If you’re feeling sinister (1999), quando Isobel Campbell ainda integrava o grupo. Esta ambientação não abandona por completo o novo disco, mas é deixada de lado para dar espaço à letras e melodias mais animadas. A escolha dos instrumentos mais representativos em cada canção tem a intenção de propiciar uma sensação de bom humor e otimismo. Aspecto evidenciado logo na primeira faixa, escrita e interpretada por Sarah Martin, I didn’t see it coming – apesar dos problemas, a letra diz “nós não precisamos de uma vida inteira, estamos seguindo a linha certa”. Esta música e a quarta faixa do disco, I want the world to stop, integram um vídeo de divulgação disponibilizado no site oficial e organizado pela distribuidora. Além da apresentação das duas canções, inclui algumas entrevistas – um pequeno filme.
A banda não deixou a desejar no projeto de divulgação. Antes mesmo do lançamento, pediram aos fãs que seguissem o exemplo da primeira possível capa do disco – fotografar cenas do cotidiano inspiradas pelo tema do cd. As melhores fotografias fazem parte do vídeo exposto.
Produzido por Tony Hoffer, responsável também pelo álbum anterior, o trabalho tem participação de figuras bastante conhecidas. Uma delas é a atriz britânica Carey Mulligan, que divide os vocais com o vocalista Stuart Murdoch na faixa que dá nome ao disco. A outra participação é reconhecível logo nos primeiros segundos da música Little Lou, Ugly Jack, Prophet John. Apesar da distinção de estilos, a cantora norte-americana Norah Jones realizou ótimo dueto com o vocal da banda. Para fãs mais exigentes, Read the blessed pages, Calculating bimbo e Sunday’s pretty icons – que fecha o disco com a participação de Mick Cooke na composição – remetem às obras mais antigas, por possuírem temas e levadas mais tristes.
O grupo mudou em alguns aspectos, mas obteve bom resultado ao manter o estilo indie pop e mesclar as composições. A maioria delas é de Stuart Murdoch, com exceção de duas faixas compostas e interpretadas por Sarah Martin e da animada I’m not living in the real world, escrita e cantada por Stevie Jackson. Quem acompanha a banda há bastante tempo pode não se satisfazer ao conferir o álbum pela primeira vez. Mas vale oferecer outras chances.
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Uma Viúva Bem Humorada
Uma mulher corre e se exercita em meio a uma bela paisagem à beira mar. Para acompanhar a atividade, escuta um clássico da música francesa com fones de ouvido, Et si tu n'existais pas (e se você não existisse). Longe de ser somente uma coincidência, ao relacionar a canção com o título do filme, o espectador já pode ter uma ideia do humor que lhe espera em Enfim Viúva.
Anne-Marie, vivida por Michèle Laroque, vive entediada com seu casamento. Para afastar esse sentimento, tem momentos de satisfação ao encontrar o amante, Léo, interpretado por Jacques Gamblin. Quando ele recebe uma proposta de trabalho na China, o instante parece oportuno para que o casal vá embora da cidade, tendo a liberdade de assumir o romance longe dali. Enquanto tentam escrever uma carta explicando o porquê da partida de Anne-Marie, mal podem imaginar que o marido Gilbert, papel de Wladimir Yordanoff, terminaria a tarde sendo vítima de um acidente de carro, no qual somente o gigante poodle que o acompanhava sobrevive.
A infeliz coincidência leva a família à casa da então viúva. Enquanto procuram dar-lhe forças, ela tenta disfarçar sua felicidade e alívio. Nesse ponto, desencadeia uma sequência de situações hilárias em que tenta fugir para encontrar o amante e fingir comoção pela morte do marido. Durante uma das escapadas, Anne-Marie é surpreendida pelo filho, acompanhado pela esposa e a desconfiada sogra. Procurando uma desculpa plausível, diz que estava triste e resolveu dar uma volta em busca de distração.
O filho, Christophe, atuação de Tom Morton, comove-se e passa a noite ao lado da mãe. Ele, verdadeiramente triste, relembra momentos da família, entoando uma música que o pai costumava cantar durante sua infância. A viúva, por outra vez, esconde o desespero: enquanto o filho a consola, o amante a espera. A situação é agravada quando a família resolve não ir embora, mudando-se para a casa. Ela, então, fica sem saída, dividida entre a vontade de dizer a verdade para aproveitar a tão esperada felicidade e o medo da reação dos familiares.
Na tentativa de dividir seu tempo entre a família preocupada e o amante quase desiludido com a possibilidade de partir com a amada, o filme deixa o tom de comédia de lado e proporciona uma reflexão – se aquilo que mais queremos é mesmo a melhor opção. A atriz e diretora Isabelle Margault, no segundo trabalho em que assume a direção, consegue com sucesso conciliar comédia e drama, provocando risos instantâneos nos espectadores.
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Anne-Marie, vivida por Michèle Laroque, vive entediada com seu casamento. Para afastar esse sentimento, tem momentos de satisfação ao encontrar o amante, Léo, interpretado por Jacques Gamblin. Quando ele recebe uma proposta de trabalho na China, o instante parece oportuno para que o casal vá embora da cidade, tendo a liberdade de assumir o romance longe dali. Enquanto tentam escrever uma carta explicando o porquê da partida de Anne-Marie, mal podem imaginar que o marido Gilbert, papel de Wladimir Yordanoff, terminaria a tarde sendo vítima de um acidente de carro, no qual somente o gigante poodle que o acompanhava sobrevive.
A infeliz coincidência leva a família à casa da então viúva. Enquanto procuram dar-lhe forças, ela tenta disfarçar sua felicidade e alívio. Nesse ponto, desencadeia uma sequência de situações hilárias em que tenta fugir para encontrar o amante e fingir comoção pela morte do marido. Durante uma das escapadas, Anne-Marie é surpreendida pelo filho, acompanhado pela esposa e a desconfiada sogra. Procurando uma desculpa plausível, diz que estava triste e resolveu dar uma volta em busca de distração.
O filho, Christophe, atuação de Tom Morton, comove-se e passa a noite ao lado da mãe. Ele, verdadeiramente triste, relembra momentos da família, entoando uma música que o pai costumava cantar durante sua infância. A viúva, por outra vez, esconde o desespero: enquanto o filho a consola, o amante a espera. A situação é agravada quando a família resolve não ir embora, mudando-se para a casa. Ela, então, fica sem saída, dividida entre a vontade de dizer a verdade para aproveitar a tão esperada felicidade e o medo da reação dos familiares.
Na tentativa de dividir seu tempo entre a família preocupada e o amante quase desiludido com a possibilidade de partir com a amada, o filme deixa o tom de comédia de lado e proporciona uma reflexão – se aquilo que mais queremos é mesmo a melhor opção. A atriz e diretora Isabelle Margault, no segundo trabalho em que assume a direção, consegue com sucesso conciliar comédia e drama, provocando risos instantâneos nos espectadores.
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O Labirinto de John Green
Adolescentes e seus conflitos são assuntos recorrentes em filmes, livros e letras de músicas. Os três anos correspondentes ao Ensino Médio, então, apresentam o território ideal para inúmeras narrativas. Sem se prender aos clichês da categoria na qual se encontra – Young Adult (livros para adolescentes, mas com temas mais sérios) – Looking for Alaska fala sobre os conflitos de três amigos em uma típica escola com acomodação dos Estados Unidos. É o primeiro livro do americano John Green, responsável pelo Canal Vlog Brothers, onde publica os vídeos feito com o irmão, Hank Green.
Miles “Pudge” Halter leva uma vida parada e sem muitos amigos no estado da Flórida, onde mora com os pais. Cansado de seu cotidiano, opta por uma mudança: estudar no colégio Culver Creek, em Alabama. O personagem gosta de memorizar as últimas palavras ditas por figuras conhecidas antes de falecerem. Um dos motivos que o levam à mudança, inclusive, é a busca pelo Great Perhaps (uma espécie de busca por uma “causa maior”), referência às últimas palavras de François Rebelais – “I go to seek a Great Perhaps”.
Ao chegar, conhece o garoto com o qual dividirá o quarto – Chip Martin. Com ele, toma conhecimento de algumas particularidades do local – em especial, da divisão entre populares e excluídos. Os dois grupos tentam se atingir com “brincadeiras” de mau gosto. Para organizá-las, Chip – que prefere ser chamado de “The Colonel” – conta com a ajuda de Takumi e, principalmente, de Alaska Young, acomodada em um quarto no final do corredor e a fonte mais próxima para obter cigarros e bebidas (itens proibidos pelo inspetor). Rapidamente, a garota toma conta dos pensamentos de Miles. Até aí, não há nada fora do comum e diferente de outras histórias com adolescentes.
O mérito de John Green fica por conta da sua habilidade para construir personagens que são quase uma história à parte. A paixão de Miles, por exemplo, é apresentada primeiramente como mera atração, transformada em sentimentos mais fortes pelos traços designados pelo autor. Alaska leva uma vida conturbada e gosta de se arriscar. Em seu quarto, possui uma “Life’s Library”, biblioteca particular construída ao longo do tempo, abrigando livros lidos e todos que pretende ler.
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Miles “Pudge” Halter leva uma vida parada e sem muitos amigos no estado da Flórida, onde mora com os pais. Cansado de seu cotidiano, opta por uma mudança: estudar no colégio Culver Creek, em Alabama. O personagem gosta de memorizar as últimas palavras ditas por figuras conhecidas antes de falecerem. Um dos motivos que o levam à mudança, inclusive, é a busca pelo Great Perhaps (uma espécie de busca por uma “causa maior”), referência às últimas palavras de François Rebelais – “I go to seek a Great Perhaps”.
Ao chegar, conhece o garoto com o qual dividirá o quarto – Chip Martin. Com ele, toma conhecimento de algumas particularidades do local – em especial, da divisão entre populares e excluídos. Os dois grupos tentam se atingir com “brincadeiras” de mau gosto. Para organizá-las, Chip – que prefere ser chamado de “The Colonel” – conta com a ajuda de Takumi e, principalmente, de Alaska Young, acomodada em um quarto no final do corredor e a fonte mais próxima para obter cigarros e bebidas (itens proibidos pelo inspetor). Rapidamente, a garota toma conta dos pensamentos de Miles. Até aí, não há nada fora do comum e diferente de outras histórias com adolescentes.
O mérito de John Green fica por conta da sua habilidade para construir personagens que são quase uma história à parte. A paixão de Miles, por exemplo, é apresentada primeiramente como mera atração, transformada em sentimentos mais fortes pelos traços designados pelo autor. Alaska leva uma vida conturbada e gosta de se arriscar. Em seu quarto, possui uma “Life’s Library”, biblioteca particular construída ao longo do tempo, abrigando livros lidos e todos que pretende ler.
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Inglês louco pelo esporte bretão
Em tempos de Copa, existem outras opções para quem não gosta tanto de acompanhar os jogos, ou mesmo para distrair os fanáticos entre o intervalo de um jogo e outro. Entre elas, está uma figura conhecida da literatura inglesa contemporânea – Nick Hornby. Mais famoso pelos livros Alta Fidelidade e Um Grande Garoto, iniciou com uma obra que aborda a paixão – nas palavras do autor, obsessão – pelo futebol: Febre de Bola.
Nick Hornby é fanático pelo Arsenal – um dos clubes de futebol da Inglaterra. Ele não somente acompanha resultados e notícias do time, como faz questão de ir ao estádio para assistir aos jogos, com todas as implicâncias que essa experiência traz. Mostra-se um torcedor fervoroso, marcando presença mesmo nos amistosos e conferindo os lances de cada jogador do Arsenal junto com a torcida.
A história de Febre de Bola é contada pela perspectiva do torcedor – no caso, o próprio escritor, representado pela personagem principal. Não relata apenas os jogos do seu time predileto, mas destaca também disputas de outras equipes inglesas e grupos de amigos. Logo nas primeiras páginas, dá espaço ao Brasil, comentando o desempenho elogioso de Pelé na Copa de 1970.
A paixão pelo futebol retratada na obra quebra os estereótipos existentes e velhos conceitos ditos, principalmente por pessoas que pouco sabem sobre o esporte, como a ideia de que futebol serve somente para entreter. Embora reconheça a ideia dessa prática como uma arte, Hornby sabe que sua paixão não se resume a isso e existem outros aspectos a serem levados em conta. Valoriza o empenho dos jogadores, ao concordar que o time vencedor de uma partida nem sempre apresenta o melhor desempenho.
A violência em campo também é abordada no livro, em uma situação constrangedora para o autor. Durante a Copa da Liga dos Campeões da UEFA, em 1985, a partida Juventus x Liverpool - do capítulo homônimo - terminou com a morte de 38 torcedores italianos. Hornby assistiu ao jogo pela TV, na companhia de seus alunos de nacionalidade italiana. No período, lecionava inglês para estrangeiros. Ao falar sobre o momento em que se desculpou pelo acontecimento, relata o seu impacto; a forma como algo tão pequeno pode terminar em tragédia.
No lugar de capítulos, a história é divida por jogos – como se fossem várias crônicas unidas por alguns pontos para compor o romance. O autor compara e concilia os relatos dos jogos com acontecimentos de sua vida durante os anos em que acompanhou o time - o processo de amadurecimento, a relação com familiares e amigos, os primeiros “amores” e a separação de seus pais são retratados.
A narrativa bem desenvolvida do autor inglês é capaz de agradar até quem não gosta do tema ou, especificamente, de times ingleses. O tom informal e descontraído consegue fisgar o leitor, evidenciando o humor típico de Hornby.
Nick Hornby é fanático pelo Arsenal – um dos clubes de futebol da Inglaterra. Ele não somente acompanha resultados e notícias do time, como faz questão de ir ao estádio para assistir aos jogos, com todas as implicâncias que essa experiência traz. Mostra-se um torcedor fervoroso, marcando presença mesmo nos amistosos e conferindo os lances de cada jogador do Arsenal junto com a torcida.
A história de Febre de Bola é contada pela perspectiva do torcedor – no caso, o próprio escritor, representado pela personagem principal. Não relata apenas os jogos do seu time predileto, mas destaca também disputas de outras equipes inglesas e grupos de amigos. Logo nas primeiras páginas, dá espaço ao Brasil, comentando o desempenho elogioso de Pelé na Copa de 1970.
A paixão pelo futebol retratada na obra quebra os estereótipos existentes e velhos conceitos ditos, principalmente por pessoas que pouco sabem sobre o esporte, como a ideia de que futebol serve somente para entreter. Embora reconheça a ideia dessa prática como uma arte, Hornby sabe que sua paixão não se resume a isso e existem outros aspectos a serem levados em conta. Valoriza o empenho dos jogadores, ao concordar que o time vencedor de uma partida nem sempre apresenta o melhor desempenho.
A violência em campo também é abordada no livro, em uma situação constrangedora para o autor. Durante a Copa da Liga dos Campeões da UEFA, em 1985, a partida Juventus x Liverpool - do capítulo homônimo - terminou com a morte de 38 torcedores italianos. Hornby assistiu ao jogo pela TV, na companhia de seus alunos de nacionalidade italiana. No período, lecionava inglês para estrangeiros. Ao falar sobre o momento em que se desculpou pelo acontecimento, relata o seu impacto; a forma como algo tão pequeno pode terminar em tragédia.
No lugar de capítulos, a história é divida por jogos – como se fossem várias crônicas unidas por alguns pontos para compor o romance. O autor compara e concilia os relatos dos jogos com acontecimentos de sua vida durante os anos em que acompanhou o time - o processo de amadurecimento, a relação com familiares e amigos, os primeiros “amores” e a separação de seus pais são retratados.
A narrativa bem desenvolvida do autor inglês é capaz de agradar até quem não gosta do tema ou, especificamente, de times ingleses. O tom informal e descontraído consegue fisgar o leitor, evidenciando o humor típico de Hornby.
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